Conteúdo Principal

Listagem de Apreciações

Vera Pugliese

Esta exposição apresenta um marco no processo de criação de Sonnia Guerra. Desde a formação em Belas Artes (1975 a 81) e a importante interrupção (1978 a 79) em que mergulhou no restauro de obras do Barroco em Salvador, a artista vem desenvolvendo uma trajetória coerente.
Após ter se experimentado na pintura figurativa nos anos 80 em busca de uma linguagem própria, na década seguinte começou a criar obras em abstração expressiva com a aparição de seres fantasmagóricos. Assim, ela trabalhou com mixed media, incluindo o uso do craquelé da tinta sobre folhas ouro proveniente da restauração.
Após a eloqüência desse período, Sonnia tornou seus “seres” mais rarefeitos. Aquelas figuras foram transformadas ou absorvidas por planos de geometria branda e subjetiva. Junto ao processo de depuração sob meios estritos da pintura, a pesquisa formal foi intensificada.
A pureza construtiva alcançada causou recentemente uma nova necessidade, a complexificação de seu trabalho mediante a introdução crescente de experiências cromáticas.
As suas formas flutuavam nos limites diáfanos do fundo ora tênue ora intensamente luminoso.
A obra se dobra sobre trinta anos de sua carreira, resgatando o craquelé sobre ouro das primeiras pesquisas. Esta reintrodução estilizada propicia uma dupla remissão ao passado. Ela remonta à trajetória da artista, tanto em relação com a expressividade quanto com a lógica construtiva de pesquisa formal, ainda evocativa.
O retorno do ouro remete também ao passado barroco e colonial do Brasil.

Vera Pugliese

Flavita Obino Boeckel

Carioca, graduada há quase 30 anos em Belas Artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sonnia Guerra percorreu longo caminho no mundo das artes e atravessou correntes de várias épocas. Do Rio para Brasília e da Capital Federal para o Mundo, a artista já levou sua arte para os Estados Unidos, a Europa e Américas do Sul e Central. Em todos os momentos de sua vida artística, no entanto, prevaleceu sempre sua inequívoca busca de uma técnica cada vez melhor e de uma tonalidade mais aprimorada. Como ela própria disse certa feita: “Sou atravessada por tempos de pesquisa, até que a arte pura me conduza à simplificação dos processamentos, seja da cor ou do traço, nascendo daí o que me leva a definir minha obra, hoje, como uma abstração simplificada”.
O resultado de anos de dedicação e pesquisa de desenho e composição atinge o apogeu em sua atual fase na qual mostra o refinamento de uma obra aperfeiçoada por essa árdua e incessante procura, por seus experimentos com processo, tom e forma, resultando em uma concreta evolução pictórica. Dotada de extremo rigor formal e técnico, Sonnia aposta na síntese para transmitir ao espectador a riqueza e a variedade de sua construção em ambiente cromático que ressoa e faz vibrar as retinas.
Alma, dom e tons são elementos que se mesclam e combinam de tal modo, que possibilita a existência de um trabalho pictórico peculiar e genuíno. De seu descompromisso com uma temática específica emerge a fusão do abstrato com o figurativo, tornando perceptíveis a unidade e ordenação plástica que, com personalidade, desnudam a carga expressiva disseminada no conjunto de suas telas
Embora atenta às transformações do mundo moderno, seus trabalhos parecem dialogar com o mundo de modo poético. A sutileza de suas telas leva-nos à reflexão: ao transformar cores e superpor e espelhar formas e traços, Sonnia surpreende-nos com ressonâncias míticas e magnéticas, renovando nosso entendimento do objeto de arte e fazendo-nos lembrar que criatividade, como disse OSHO, significa amar qualquer coisa que se faça, tendo prazer de realizá-la, celebrando-a como um presente de Deus.
Assim se inspira Sonnia Guerra.
Assim frutifica sua obra.

Flavita Obino Boeckel - Presidente da ACAV

Héris Victória Guimarães

O aspecto de um quadro pode proporcionar intensa satisfação ao espectador que seja sensível às estruturas organizadas nas artes visuais. Entretanto, a imagem expressiva não tem de estar necessariamente ligada a uma forma representativa da arte, mas dar ao espectador uma emoção diferente. Em certas pinturas a imagem que se comunica vigorosamente ao espectador nem sempre representa um objeto específico. Os quadros de Sonnia Guerra são evocadoras combinações de forma e cor suscetíveis de sugerir ou criar ambiente ou atmosfera que o observador sensível pode perceber como uma imagem expressiva.
Como toda artista interessada nos valores do seu tempo, Sonnia Guerra apresenta seus últimos trabalhos em nova linguagem visual mais expressiva. Cuidadosa na ordem, na harmonia, na construção, consegue, numa audácia lógica, equilibrar a verticalidade dos quadros com as massas em cores variadas que cobrem livremente as superfícies das telas em ritmos horizontais
Sonnia, sem se afastar da inspiração lírica e com crescente interesse pela obra de arte, consegue uma bela e excitante combinação de formas e cores que satisfaz uma necessidade estética, sem depender do potencial representativo, o que faz dela uma pintora audaciosa e virtual.

Héris Victória Guimarães - Professora catedrática da Escola Nacional de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Wagner Barja

A forma e a cor do invisível.
Como dar forma e cor a algo que não vemos? Algo que vem do interior de cada um de nós e não se pode exteriorizar com o verbo? São imagens que trazem à tona o nosso mais íntimo ímpeto de identificação com o mundo  e  o desejo manifesto de trazer ao mundo do visível o que  o que é oculto.
Ao  recriar imagens de seu imaginário individual, Sonnia Guerra sonha acordada e busca na  pintura um argumento, um sinal para demonstrar o que sonha.  Transmite  uma ideia de fugacidade numa esmerada e paciente pesquisa de cores e formas, torna tudo visível numa geometria que permanece sempre em suspensão, impalpável como o espírito.
Suas  pinturas, para além da aparência, apresentam uma síntese  alcançada após um processo complexo de elaboração.
Ao rasgar janelas de luz nos  seus quadros, vai abrindo possibilidades à passagem de um sopro, brisa  que desperta entidades criativas  que veem pairar sobre sua pintura.
A repetição sistemática do quadrado e do retângulo, parece combinar  com a extremada disciplina de Sonnia, porém todo rigor se dissolve para transparecer uma sensível construção,  que evoca um repouso para  as formas, que  como recipientes, recebem e  acomodam   camadas  cromáticas,  sobrepostas, organizando uma sequência rítmica, que  ordena  o corpo da composição.
Trabalhando forma e cor, elementos essenciais  da linguagem pictórica,  a atenção da artista concentra-se numa paciente busca de inúmeras combinações. Numa   palheta de qualidade, a artista revela o conhecimento sobre cores, aplicado-o ao processo de construção, que baseia-se na conjugação de cores e   formas, elementos  harmonizados no exercício da sua pintura.
O que interessa a Sonnia não é somente o deleite formal, pode-se, a partir dessas imagens,  perceber – se uma experiência  que transcende o formalismo e abre a possibilidade de  passagem, por uma  porta  para um  lugar subjetivo onde  transita a essência da arte.
A estrutura que  usa para seus quadros, transforma cores e formas em iscas irresistíveis para o olhar. Outra característica interessante, está no conjunto de suas obras, que distribuído no espaço,  faz vibrar a retina e milagrosamente movimenta  o  ambiente.
A pintura de camadas sobrepostas e homogêneas, cria uma série de véus tênues, que provocam o olho do espectador  a ir e vir para  buscar a sua pessoal e intransferível experiência cromática.
Os ambientes/cor denotam a intenção de uma pintura que quer sair dos limites do quadro e penetrar o espaço com a participação de nossas retinas.
Sem recursos externos à pintura, a artista encontra na tradição dessa linguagem um caminho possível para as suas  investigações emocionais,  espirituais, técnicas e formalistas. Contudo, percebe-se ainda na sua pesquisa,  um  manifesto caráter de  subjetividade  e transcendência.
Sonnia processa sem eloquências, um sóbrio e silencioso exercício de pintar, longe  das fugas do suporte bidimensional e sem abdicar dos elementos essenciais dessa linguagem, já tão admoestada desde as distantes rupturas modernas.

Wagner Barja

Luis Turiba

Olhar com o olhar de buscar. E, assim, vão surgindo janelas que se abrem a outras janelas, a novas janelas e assim sucessivamente num verdadeiro balé de cores, formas e efeitos visuais. Muitas vezes essas janelas chegam a tremular como bandeiras penduradas em varais. Retratam chuvas de vento no deserto, céu e mar no final de dunas de areia, imagens tropicais flagradas por intermédio de um retrovisor de carro.
A pintura, os quadros e a proposta estética da artista plástica Sonnia Guerra ( não necessariamente nesta ordem ) trazem o DNA da radicalidade que caracteriza os artistas que não abrem mão de suas linguagens e propostas.A cada nova exposição, Sonnia se aprofunda mais ainda no mágico balé das cores e formas.
Não há concessão em seu trabalho – nem ao mercado, nem ao modismo, nem ao colorismo fácil .
Sobre a dialética que pulsa em suas telas, escreveu recentemente Héris Victória Guimarães, professora catedrática da Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde a artista se formou: “Cuidadosa na ordem,na harmonia, na construção, consegue, numa audácia lógica equilibrar a verticalidade dos quadros com as massas em cores variadas que cobrem as superfícies das telas em ritmos horizontais, (…).
Através do mundo das artes, Sonnia Guerra procura as mais intensas expressões de sensibilidade e desenvolve um trabalho extremamente próprio, puramente imaginário, onde o espectador, conforme a emoção, distingue imagens que surgem e se multiplicam em espaços, ora finitos , ora infinitos… visões subjetivas e espirituais! Um sonho fantástico.”
Sonnia Guerra vem firmando uma significativa trilha para suas telas há 20 anos. Sua estréia se deu em 1982 no Instituto de Cultura Uruguayo-Brasileño de Montevidéu, no Uruguai. De lá para cá foram inúmeras as mostras que participou. Somente no ano passado ela fez três exposições individuais: no Hotel Inter-Continental Castellana , em Madri, Espanha; na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro e na Casa da América Latina, em Bucareste, Romênia.
Ter uma exposição sua no mezanino do Teatro Nacional Cláudio Santoro é uma honra para Brasília e para as artes plásticas dessa cidade , que nasceu obra de arte no risco de Lúcio Costa e no traço de Oscar Niemeyer.
De suas janelas, novos horizontes surgirão no mágico balé das cores e Brasília ficará ainda mais colorida.

Luis Turiba