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A forma e a cor do invisível.
Como dar forma e cor a algo que não vemos? Algo que vem do interior de cada um de nós e não se pode exteriorizar com o verbo? São imagens que trazem à tona o nosso mais íntimo ímpeto de identificação com o mundo  e  o desejo manifesto de trazer ao mundo do visível o que  o que é oculto.
Ao  recriar imagens de seu imaginário individual, Sonnia Guerra sonha acordada e busca na  pintura um argumento, um sinal para demonstrar o que sonha.  Transmite  uma ideia de fugacidade numa esmerada e paciente pesquisa de cores e formas, torna tudo visível numa geometria que permanece sempre em suspensão, impalpável como o espírito.
Suas  pinturas, para além da aparência, apresentam uma síntese  alcançada após um processo complexo de elaboração.
Ao rasgar janelas de luz nos  seus quadros, vai abrindo possibilidades à passagem de um sopro, brisa  que desperta entidades criativas  que veem pairar sobre sua pintura.
A repetição sistemática do quadrado e do retângulo, parece combinar  com a extremada disciplina de Sonnia, porém todo rigor se dissolve para transparecer uma sensível construção,  que evoca um repouso para  as formas, que  como recipientes, recebem e  acomodam   camadas  cromáticas,  sobrepostas, organizando uma sequência rítmica, que  ordena  o corpo da composição.
Trabalhando forma e cor, elementos essenciais  da linguagem pictórica,  a atenção da artista concentra-se numa paciente busca de inúmeras combinações. Numa   palheta de qualidade, a artista revela o conhecimento sobre cores, aplicado-o ao processo de construção, que baseia-se na conjugação de cores e   formas, elementos  harmonizados no exercício da sua pintura.
O que interessa a Sonnia não é somente o deleite formal, pode-se, a partir dessas imagens,  perceber – se uma experiência  que transcende o formalismo e abre a possibilidade de  passagem, por uma  porta  para um  lugar subjetivo onde  transita a essência da arte.
A estrutura que  usa para seus quadros, transforma cores e formas em iscas irresistíveis para o olhar. Outra característica interessante, está no conjunto de suas obras, que distribuído no espaço,  faz vibrar a retina e milagrosamente movimenta  o  ambiente.
A pintura de camadas sobrepostas e homogêneas, cria uma série de véus tênues, que provocam o olho do espectador  a ir e vir para  buscar a sua pessoal e intransferível experiência cromática.
Os ambientes/cor denotam a intenção de uma pintura que quer sair dos limites do quadro e penetrar o espaço com a participação de nossas retinas.
Sem recursos externos à pintura, a artista encontra na tradição dessa linguagem um caminho possível para as suas  investigações emocionais,  espirituais, técnicas e formalistas. Contudo, percebe-se ainda na sua pesquisa,  um  manifesto caráter de  subjetividade  e transcendência.
Sonnia processa sem eloquências, um sóbrio e silencioso exercício de pintar, longe  das fugas do suporte bidimensional e sem abdicar dos elementos essenciais dessa linguagem, já tão admoestada desde as distantes rupturas modernas.

Wagner Barja